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Entrevista sobre a revista The Doors comics – site Vírgula

Personagens do The Doors são ilustrados em HQ de Daniel Gisé

Redação. 11 de novembro de 2007

Formado em artes plásticas pela UNESP, Daniel Gisé é responsável pelo The Doors Comics, site que apresenta histórias em quadrinhos com os integrantes da banda como personagens. Além disso, o quadrinista participa do projeto Sociedade Radioativa. O lançamento da publicação The Doors Comics aconteceu no Astronete Bar, em São Paulo, na última quarta-feira (7/11), com show da banda cover dos Doors, Five to One, e reuniu amigos e curiosos para ver a HQ.
O Virgula-Música foi atrás de Daniel, que nos contou mais dessa e de outras histórias. Confira!

Você é fã do The Doors? Como surgiu a idéia de criar uma HQ da banda?

Eu já era fã desde que eu tinha dezesseis anos. Em 2002, no final do ano, eu descobri o site do Scott McCloud, um teórico dos quadrinhos, falando sobre webcomics, que são quadrinhos feitos na internet. Fiquei empolgadíssimo com essa descoberta e comecei a procurar personagem, queria ter um personagem, para ter um site só de quadrinhos. Havia um fórum, onde pessoas do mundo inteiro discutiam sobre webcomics.

Nessa mesma época havia vários lançamentos de coisas raras do Doors e, por conta disso, tinha um outro fórum, onde as pessoas iam para lá discutir sobre raridades, conversar sobre a banda… Numa dessas conversas surgiu uma questão sobre o último disco LA Woman, que não tem tecladista em duas músicas. Então, alguém questionou o porquê disso sobre essas duas músicas. Ao responder, eu soltei uma piada, uma brincadeira. De repente, percebi que essas histórias soavam engraçadas e eu decidi fazer um quadrinho. Daí surgiram duas histórias, que são os nomes das duas músicas, que é o momento quando o Ray [Manzarek], tecladista do Doors, sai do estúdio, enquanto eles estão gravando o disco LA Woman, e o resto da banda diz “Ah! Vamos tocar uma música sem ele”. E as duas histórias são meio assim. Ele sai e o resto da banda aproveita para tocar.

As pessoas gostaram dessas duas histórias e eu comecei a pensar em mais, quando pensei “Eles vão ser meus personagens”, assim surgiu o The Doors Comics.

As histórias são todas ficcionais ou tem um pouco da história da banda?

Tem bastante fatos reais e eu coloco um pouco de humor. Essas duas histórias são inventadas mesmo. Tem mais algumas inventadas, principalmente, no começo do site. Depois, à medida que eu fui lendo, estudando sobre a banda com livros que vieram do exterior para mim, as histórias começaram a ficar mais realistas.

O Ray possui uma biografia dele e é conhecido o fato de contar as histórias sobre o Jim Morrison e sobre o The Doors. Ele tem um jeito de ser contador de histórias, mas toda vez que conta, ele inventa mais detalhes e todo mundo fala: Ah! Esse cara está exagerando, mas não importa, pois são engraçadas. Ele fala com a maior paixão a primeira vez que encontrou com o Jim Morrison. Disse que o Jim vinha chutando a água na praia, o Ray estava sentado na areia olhando e fala que os pingos de água pareciam diamantes no ar, ia inserindo umas coisas assim. Assim eu inventei a série Ray e o Contador de Histórias.

Você já mostrou algum material seu para algum membro remanescente da banda?

Quando surgiu o site, eu não tinha pretensão nenhuma de que isso acontecesse. Se algum dia um deles visse o site, já ia ser muito legal. Em 2005, o site deu um salto.

O agente de publicidade do The Doors nos anos 60, Leon Barnard, que lançou o livro de memórias do Jim Morrison, tinha em seu site uma introdução ele e o Jim estarem sentados, certa noite, para escrever uma história em quadrinhos. Só que eles ficaram brincando com a idéia e, de repente, esqueceram e nunca mais voltaram no assunto.

Achei demais isso, mandei meu site pra ele, que adorou e falou: “Qualquer dia a gente vai fazer alguma coisa juntos”. Mandou-me o livro dele, conversamos, daí ele entrou no meu site, deixou mensagem no guestbook , dizendo que achou muito legal [os quadrinhos] e disse que o Jim Morrison teria gostado muito. Então, ele ficou com a gente lá no fórum, respondendo perguntas, conversando, e chegou a contar uma história do Jim Morrison que chegou bêbado para um show. O Ray ou algum outro integrante da banda pegou as maracas do Jim, que ele gostava de brincar nos shows, deu para o Leon e disse: “Esconde isso! O Jim Morrison está bêbado e vai estragar tudo, guarda isso”. Assim, eu resolvi escrever a história “Las Maracas”, que está na revista e no site.

Depois eu encontrei outras pessoas, como o guitarrista do Love, banda que o pessoal do The Doors chegou a abrir vários shows, e que teve um papel importante no começo da carreira. Essas histórias são reais. Como eu havia dito, o site deu um salto por conta dessas parcerias, que ajudaram a divulgar bastante o trabalho.

Hoje eu sei que eles [integrantes do Doors] já viram. Fui amigo do webmaster do Ray Mazarek. Houve uma polêmica no site da banda, quando surgiu a nova formação para fazer turnê das músicas do Doors, muita gente não gostou da idéia, assim como alguns amaram a idéia. Depois disso, ele [o webmaster] deu uma sumida. Um dia, eu entrei no fórum e havia um post sobre “Ray e o Contador de Histórias”, em que estava escrito: “Adorei essa história, será que o Ray já viu?”. Daí o webmaster respondeu: “Eu mandei o link para ele, se tiver algum comentário eu repasso”.

Ele nunca repassou?

Não… Mas eu sei que eles já viram pelo menos.

Desde quando você tem esse site?

Desde janeiro de 2003.

Por que demorou tanto para sair a versão impressa da HQ?

Na internet, é mais fácil para colocar cor, publicar na hora. Isso é uma coisa que as pessoas me pediam para eu fazer. Eu quis imprimir em 2005, e a minha idéia era imprimir lá nos Estados Unidos [os quadrinhos do site estão em inglês]. A princípio foi feito para fora. Quem conhecia mesmo, aqui no Brasil, eram meus amigos, gente mais próxima. Aí eu comecei a imprimir na Sociedade Radioativa, que é uma revista que eu participo no site também.

Conheci Rafael Coutinho na faculdade e, por coincidência, ele começou a publicar na Sociedade, que já tinha crescido, não era mais feito em xérox, já era uma revista. Mandei o The Doors Comics para ele, que falou: “Vamos publicar”. Foi quando comecei a publicar algumas histórias na revista, e houve uma boa ceitação das pessoas. Então, Ulisses, que é o editor, disse “Vamos começar a fazer uns projetos solos”. Foi quando decidi fazer o The Doors Comics, que saiu só agora.

E a revista não teve problemas com direitos autorais em relação à banda?

A princípio não, eu conversei com o empresário do The Doors, que falou “me manda o seu projeto e a gente vai ver”, mas nunca tive nenhuma resposta. Depois, ele falou que eu não tinha direitos de publicar: “Você não tem os direitos de publicar em qualquer lugar fora o site”. Mas, nunca mais consegui falar com ele, pois ele sumiu. Eu não acho que isso represente algum problema para eles, não vou ficar milionário por causa disso e estou usando as histórias deles de um jeito legal.

Eu descobri um outro quadrinho dos Doors, em que o logo da banda estava na capa e a imagem da banda era muito mais explorada. Eu só criei os personagens caricaturizados dos integrantes. Nesse outro não, eles fizeram um desenho mais realista, criou uma biografia, que foi lançada em 1991, pela editora quadrinhos revolucionários, ao mesmo tempo em que o filme dos 20 anos da morte do Jim Morrison. Essa publicação não tem autorização e fizeram questão de pôr na capa: “sem autorização e orgulhosos disso”. É vendido no e-bay e já publicaram biografias de várias bandas de rock, como [Frank] Zappa, Led Zeppelin.

Como você pretende comercializar sua HQ?

Por enquanto, a gente tem uma rede de postos de vendas. São algumas bancas e lojas especializadas em quadrinhos. Em geral, quem cuida dessa parte é o Ulisses [Garcez]. Ele contrata um distribuidor e manda para outras bancas mais longe, em Santo Amaro… A gente nem sabe aonde exatamente ele distribui. Sabemos que vai para o Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte mais recentemente, Espírito Santo é possível que vá também.

Conta um pouco mais sobre o outro projeto o qual você faz parte, o Sociedade Radioativa.

Além de mim, os participantes da revista são Ulisses Garcez, Rafael Coutinho, Luisa Dória, Tiago Judas, Caeto e Dage. A revista já existia desde 1998, eu enviei uma história para eles em 1999, depois fiquei um tempão sem participar, pois quando entrei na faculdade de artes plásticas da Unesp, me distanciei um pouco dos quadrinhos.

No próximo mês de dezembro, a gente vai lançar um número especial da Sociedade Radioativa. Pensamos em ser uma coisa mais caderno de rascunho, umas coisas mais soltas. A idéia inicial era colocar a história em quadrinhos e o making off da história.

Entrevista sobre a adaptação de Os Sofrimentos do Jovem Werther em quadrinhos – Clássicos em HQ [2012]

Essa entrevista para a Editora Peirópolis foi feita no momento em que eu produzia a adaptação do clássico Os Sofrimentos do jovem Werther e foi publicada no livro-coletânea Clássicos em HQ da Peirópolis.

O que é um clássico para você?

Para mim um clássico é um livro que lida com questões humanas universais e fundamentais que continuam as mesmas com o passar dos anos.

Qual a sua relação com os clássicos da literatura? Como leitor e como professor? (penso também nos cursos que você tem ministrado, em que aparecem jovens trabalhando, por exemplo, com Machado de Assis).

Eu adoro ler clássicos, ver filmes clássicos, ler HQs clássicas, para mim é essencial ter contato com obras de outras épocas, é enriquecedor em termos de estética, visão de mundo e autoconhecimento. Seria uma limitação muito grande focar somente na arte produzida hoje. Percebo que muita coisa que é vendida como novidade hoje na verdade vem evoluindo há muito tempo.
Gostaria de aprofundar mais a questão da leitura com meus alunos. Sempre passo uma lista de sugestão de leitura e comento com eles sobre coisas que eu gosto, mas fica nisso e nós acabamos trabalhando mais o desenho e a linguagem das HQs. Foi surpreendente ver alunos usando referências como Machado de Assis e Edgar Allan Poe em um curso de quadrinhos que ministrei.

Quando você leu pela primeira vez Os sofrimentos do jovem Werther? O que significou então?

Na época eu estava na faculdade de Artes Plásticas e estava estudando a teoria das cores do Goethe. Adorei a visão do Goethe sobre as cores e busquei uma obra de literatura para conhecer mais e escolhi Werther. Eu tinha mais ou menos a mesma idade do Werther – 21 ou 22 anos – e vivia angústias parecidas com as do personagem. O tema central do livro é sobre o amor impossível por uma mulher casada e o consequente suicídio por amor, mas também mostra o jovem que reflete sobre a vida, o conflito entre fazer o que gosta ou abrir mão disso para trabalhar em uma carreira promissora por pressão da família, a busca por uma personalidade autêntica… Foi com essa parte que me identifiquei. Acho que estas questões não envelhecem.

Poderia nos contar um pouco sobre seu processo de criação deste álbum?

O trabalho começou com a leitura do livro e, ao mesmo tempo, uma pesquisa com a moda da época. Assisti muitos filmes e pesquisei livros de história da moda. Li o livro várias vezes. Na primeira leitura fiz anotações e produzi um pequeno resumo do livro. Desde o início fui tentando perceber quais eram os momentos-chave da estória e fui acrescentando detalhes e cortando passagens desnecessárias até produzir o primeiro tratamento do roteiro. Trabalhei neste roteiro para deixar somente o essencial, ao mesmo tempo em que fazia um rascunho das páginas desenhadas, dividindo trechos do roteiro em páginas e quadrinhos. No momento estou fazendo o desenho definitivo das páginas a lápis. Ainda faltam a arte final e as cores.

Como foi roteirizar Goethe? Como escolheu o que “ficava” do texto?

Foi ótimo roteirizar o livro. Percebi que normalmente nossa leitura tende a ser superficial. Procurei ver todas as cenas do ponto de vista de cada personagem e entendendo suas motivações. Isso enriquece muito a leitura. Após a leitura você pode voltar a um ponto anterior da história e rever um trecho onde uma frase que antes parecia dita ao acaso, e depois, conhecendo melhor a personagem, essa mesma frase adquire um novo sentido. Lendo e relendo o livro, resumi a narrativa em alguns momentos principais que serviram para mim como uma espécie de mapa para me orientar na síntese da estória. Tudo o que fosse imprescindível para levar a narrativa a estes momentos estaria dentro do roteiro o resto ficaria de fora.

Qual o significado deste álbum em preparação para o conjunto de sua obra até agora?

É muito importante. Eu estava ansioso para fazer uma adaptação literária. Gosto muito de ler, sempre gostei dos clássicos e sabia que seria um processo interessante, tem sido ótimo.